O discurso original foi impresso na A Liahona de julho de 2002, pp. 19-22.

Em abril de 1966, na Conferência Geral Anual da Igreja, o Élder Spencer W. Kimball fez um discurso memorável. Ele citou uma história escrita por Samuel T. Whitman, intitulada “Cunhas Esquecidas”. Decidi citar também a história de Samuel T. Whitman, acrescentando em seguida alguns exemplos de minha própria vida.

Whitman escreveu: “A tempestade de neve [daquele inverno] não tinha sido muito forte. É verdade que alguns fios de eletricidade haviam sido derrubados e que houve um súbito aumento no número de acidentes ao longo da rodovia. (. . .) Normalmente, a grande nogueira teria facilmente conseguido suportar o peso que se acumulou em seus longos galhos. Foi a cunha de ferro escondida dentro dela que causou o estrago.

A história da cunha de ferro começou muito tempo antes, quando o fazendeiro de cabelos brancos [que hoje mora na propriedade em que a nogueira se erguia] era um menino na fazenda de seu pai. A serraria tinha acabado de mudar-se do vale, e os novos moradores ainda encontravam ferramentas e peças de equipamento espalhadas por toda parte. (. . .)

Naquele dia, em particular, foi uma cunha de madeireiro — grande, plana e pesada, com 30 cm ou mais de comprimento, entortada pelo uso [— que o menino encontrou](. . .) no pasto. [A cunha de madeireiro é utilizada para derrubar uma árvore, inserindo-se a cunha num talho e golpeando-a com uma marreta para alargar a fenda.] (. . .) Como já estava atrasado para o jantar, o rapaz colocou a cunha (. . .) entre os galhos da jovem nogueira que seu pai havia plantado perto do portão principal. Ele pretendia levar a cunha para o galpão logo depois do jantar, ou em outra ocasião em que estivesse passando por ali.

Ele realmente pretendia fazê-lo, mas nunca o fez. [A cunha] estava ali entre os galhos, um pouco espremida, quando ele chegou à idade adulta. Estava ali, firmemente presa, quando se casou e assumiu a fazenda do pai. Estava parcialmente encoberta no dia em que o pessoal da colheita jantou sob a árvore. (. . .) Totalmente oculta na árvore, a cunha ainda estava lá no inverno em que caiu aquela tempestade de neve.

No silêncio gelado daquela noite de inverno (. . .) um dos três galhos maiores se partiu e caiu ruidosamente ao chão. O restante da árvore ficou com uma distribuição desequilibrada de peso e também se partiu e acabou tombando. Quando a tempestade passou, não restara sequer um broto da árvore outrora majestosa.

Bem cedo pela manhã, o fazendeiro saiu de casa para lamentar sua perda. (. . .)

Então seus olhos avistaram algo no tronco desabado. ‘A cunha’, murmurou ele, reprovadoramente. ‘Acunha que eu encontrei no pasto’. Num instante ele percebeu por que a árvore tinha caído. Presa no tronco que crescia, a cunha impediu que as fibras dos galhos se entrelaçassem como deviam”.1

Irmãos e irmãs, existem cunhas ocultas na vida de muitas pessoas que conhecemos, sim, talvez até em nossa própria família.

Gostaria de contar-lhes sobre um amigo muito querido, que hoje já partiu da mortalidade. Seu nome era Leonard. Ele não era membro da Igreja, embora sua mulher e filhos fossem. Sua mulher serviu como presidente da Primária; seu filho serviu honrosamente em uma missão. Tanto sua filha quanto seu filho casaram-se em solenes cerimônias no templo e tinham suas respectivas famílias.

Todos que conheciam Leonard gostavam dele, tal como eu. Ele apoiava sua esposa e seus filhos em suas designações na Igreja. Ele ia a muitas atividades patrocinadas pela Igreja com eles. Ele levava uma vida digna e pura, uma vida de serviço ao próximo e bondade. Sua família e muitas outras pessoas se perguntavam por que Leonard tinha passado toda a mortalidade sem as bênçãos que o evangelho proporciona a seus membros.

Quando Leonard ficou idoso, sua saúde começou a fraquejar. Ele acabou sendo hospitalizado, às portas da morte. Na última vez que conversei com Leonard, ele me disse: “Tom, eu o conheço desde quando você era um menino. Sinto que devo explicar-lhe porque nunca me filiei à Igreja”. Então, ele contou algo que havia acontecido com seus pais, há muitos e muitos anos. Relutantemente, a família chegou a uma situação tal, que viu que precisaria vender sua fazenda, e recebeu uma proposta. Nessa ocasião, um fazendeiro vizinho pediu-lhes que vendessem a fazenda para ele, embora por um preço menor, acrescentando: “Sempre fomos bons amigos. Desse modo, se eu comprar a sua fazenda, poderei tomar conta dela”. Por fim, os pais de Leonard concordaram em vender a fazenda. O comprador, aquele vizinho, ocupava um cargo de responsabilidade na Igreja, e a confiança que isso suscitava ajudou a convencer a família a vender-lhe a fazenda, embora não tivessem percebido que teriam recebido muito mais se a tivessem vendido para o primeiro comprador interessado. Pouco tempo depois de a venda ter sido efetuada, o vizinho vendeu a sua fazenda juntamente com a fazenda comprada da família de Leonard, que combinadas ficaram muito valorizadas e alcançaram um preço de venda bem mais alto. A antiga dúvida sobre o motivo pelo qual Leonard jamais se filiara à Igreja tinha sido respondida. Ele sempre sentira que sua família tinha sido enganada pelo vizinho.

Ele confidenciou-me, depois de nossa conversa, que sentia como se um grande fardo tivesse sido finalmente removido de suas costas, ao preparar-se para encontrar-se com o Criador. A tragédia foi que uma cunha oculta impedira que Leonard progredisse espiritualmente na vida.

Conheço uma família que veio da Alemanha para a América. A língua inglesa era difícil para eles. Tinham poucos recursos, mas todos foram abençoados com a vontade de trabalhar e um amor a Deus.

Seu terceiro filho nasceu, mas viveu apenas dois meses e depois morreu. O pai era marceneiro e construiu um belo caixão para o corpo de seu querido filho. O dia do funeral foi sombrio, expressando a tristeza que sentiam pela morte do filho. A família caminhou até a capela, com o pai carregando o pequeno caixão, e um pequeno grupo de amigos se reuniu. Mas a porta da capela estava trancada. O atarefado bispo tinha-se esquecido do funeral. Todas as tentativas de encontrá-lo foram em vão. Sem saber o que fazer, o pai colocou o caixão debaixo do braço e carregou-o de volta para casa, com a família a seu lado, caminhando sob uma chuva torrencial.

Se a família tivesse um caráter mais fraco, eles poderiam ter culpado o bispo e guardado ressentimentos. Quando o bispo ficou sabendo da tragédia, foi visitar a família e se desculpou. Com a mágoa ainda evidente no rosto, mas com lágrimas nos olhos, o pai aceitou as desculpas, e os dois se abraçaram num espírito de compreensão. Não restou nenhuma cunha oculta para causar mais sentimentos de raiva. O amor e a aceitação prevaleceram.

O espírito precisa ser libertado de tudo que impeça seu progresso e de ressentimentos não resolvidos para que a alma sinta alegria na vida. Em muitas famílias, há sentimentos feridos e uma relutância em perdoar. Não importa, realmente, qual tenha sido a questão. Não podemos nem devemos permitir que ela continue a magoar-nos. Condenar o outro faz com que as feridas permaneçam abertas. Somente o perdão cura. George Herbert, um poeta do início do século XVII, escreveu: “Aquele que não perdoa destrói a ponte que ele próprio precisará atravessar se desejar atingir o céu, porque todos precisamos de perdão”.

Belas são as palavras do Salvador quando estava prestes a morrer na impiedosa cruz. Ele disse: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”.2

Há pessoas que têm dificuldade em perdoar a si mesmas e se apegam a suas supostas imperfeições. Gosto muito da história de um líder religioso que se colocou ao lado de uma mulher que estava morrendo, tentando confortá-la, mas sem ter sucesso. “Estou perdida”, disse ela. “Arruinei minha vida e a de todos a meu redor. Não há esperança para mim”.

O homem notou um retrato de uma linda menina sobre a cômoda. “Quem é ela?” perguntou ele.

A mulher ficou radiante. “Ela é minha filha, a única coisa bela em minha vida”.

“E você a ajudaria se ela estivesse com problemas ou tivesse cometido um erro? Você a perdoaria? Ainda continuaria a amá-la?”

“Claro que sim!” exclamou a mulher. “Eu faria qualquer coisa por ela. Por que me pergunta isso?”

“Porque quero que você saiba”, disse o homem, “que, figurativamente falando, o Pai Celestial tem um retrato seu sobre a cômoda Dele. Ele a ama e irá ajudá-la. Peça Seu auxílio”.

Uma cunha oculta que impedia sua felicidade foi removida.

Num momento de perigo ou de provação, esse conhecimento, essa esperança, essa compreensão proporcionarão conforto para a mente perturbada e o coração aflito. Todo o Novo Testamento transmite a mensagem de renascimento da alma humana. As sombras do desespero são dispersas pelos raios de esperança, a tristeza é substituída pela felicidade, e o sentimento de estarmos perdidos na multidão desaparece com a certeza de que o Pai Celestial Se importa com cada um de nós.

O Salvador garantiu a veracidade disso ao ensinar que nenhum pássaro cai ao chão sem que o Pai Celestial saiba. Ele concluiu essa bela mensagem, dizendo: “Não temais, pois; mais valeis vós do que muitos passarinhos”.3

Há algum tempo, li o seguinte artigo da Associated Press publicado num jornal. “Um homem idoso revelou no funeral de seu irmão, com quem havia dividido desde a juventude uma pequena cabana de um só cômodo nos arredores de Canisteo, Nova York, que eles haviam dividido o quarto ao meio com uma linha riscada a giz no chão, após uma briga, e que nenhum deles havia cruzado a linha ou trocado uma única palavra com o outro desde aquele dia, 62 anos antes”. Que poderosa e destrutiva cunha oculta.

Como Alexander Pope escreveu: “Errar é humano, perdoar é divino”.4

Às vezes nos ofendemos com muita facilidade. Em outras ocasiões somos por demais obstinados para aceitar um sincero pedido de desculpa. Vamos vencer nosso ego, orgulho e mágoa e depois dar um sinto muito! Vamos ser o que já fomos um dia: amigos. Não passemos para as gerações futuras as desavenças e raivas de nossa época”.

Removamos todas as cunhas ocultas que só servem para destruir-nos.

De onde se originam as cunhas ocultas? Algumas resultam de disputas não resolvidas, que levam a maus sentimentos, seguidos de remorso e tristeza. Outras começam com desapontamentos, invejas, discussões e mágoas imaginárias. Precisamos resolvê-las, deixá-las de lado e não permitir que germinem, se espalhem e acabem destruindo.

Uma amável senhora de mais de noventa anos de idade veio procurar-me certo dia e inesperadamente me contou várias mágoas que tinha. Ela mencionou que muitos anos antes, um fazendeiro vizinho, com quem ela e o marido haviam tido desentendimentos ocasionais, pediu se poderia cortar caminho por dentro de sua propriedade para chegar até as terras dele. Ela fez uma pausa, então, com a voz trêmula, disse: “Tommy, eu não deixei que ele cruzasse nossa propriedade, mas fiz com que ele desse toda a volta, a pé, para chegar até as terras dele. Eu errei e me arrependo disso. Ele já morreu, mas como eu gostaria de poder dizer-lhe que sinto muito. Como desejaria ter uma segunda chance”.
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